
um homem nos seus cinquentas que se veste em outfit de ginásio e se senta, impávido, com o telefone entre as pernas, cujas colunas de pobre qualidade passam umas flautas com uns instrumentais hindus de fundo. Passo por ele frequentemente mas estou convencido de que nunca reconheceu a minha existência. Responsabilizo isso à sua presença absolutamente impávida que previne qualquer contacto exterior. Ao me inclinar sobre a frase acima, concluo que nem certeza tenho sobre o significado da palavra impávido, mas segue sendo a palavra que mais se aplica a este nobre senhor.
A atitude que adopta não é nem estóica, nem meditativa, nem sequer altiva. Mas ao reflectir sobre o assunto, concluo também que não é totalmente ausente ou desconectada, nem sequer delirante. É aquilo que é: impávida! A própria ideia de vestir as roupas de ginásio e de se sentar no banco menos interessante do parque ilustra bem aquilo que simboliza para aquele gentil homem aquele momento mágico.
Acho espetacular // pergunto-me se a minha admiração não terá origem no aborrecimento que encontro nas modas das verdades universais. O meu amigo João que começara a correr e que faz agora iron mans e endoutrina-me com as suas técnicas de aceleração do coração e as suas dietas inovadoras. O meu amigo João, como tantos outros, não se ficou pelo “gajo que gosta de correr”, para se deixar afogar por uma atividade cujos braços e pernas se movem mais rápido do que costumam.
E acontece que hoje, passando pelo parque, eu ia comendo uma sandwich que se tornava difícil de comer. Ao ouvir as flautas, decidi que seria boa ideia sentar-me a seu lado e sucumbir à musicalidade daquele não-lugar.
E foi espetacular precisamente porque não foi nada de especial. Era só ali um ser humano, com o telemóvel entre as pernas, a ser o ser humano que ele próprio é.
E outro (eu) que me via à rasca para acabar a sandwich.
E os outros que passavam, mais uns arames à frente que nos separaram de umas obras horríveis, o vento que soprava estranho. Nada de especial, umas flautas que já me irritavam, uma poesia que contrastava com o romantismo estético dos heróis das internets. Heróis éramos nós que levávamos com o pó nos olhos e as flautas do outro, cujas barrigas nos cresciam, cabelos despenteados, sacos pesados que transportamos para aqui e para ali... Impávidos !! Gloriosamente impávidos.



Hoje tentei uma reflexão, sem sucesso.
Vi coisas giras.
Vi um chihuahua a acelerar o passo para acompanhar o andar ansiosos da dona.
Vi dois malandros de rua que se vestiram bem para ir beber um chá quente. Celebrar a vida que, também para eles (os malandros), se faz boa.
Olhei aqueles edifícios envidraçados, do pós-guerra, que um corajoso arquitecto decidiu conceber.
Passei pela cidade sem querer que ela notasse por mim. Vi as suas belezas e aceitei bem as suas contrariedades, trazendo-me ao encontro de pessoas mais silenciosas do que é costume.
Uma senhora, parisiense, que me contava do seu baptizado na Madeleine. Os pais, também eles, se tinham casado na Madeleine.
A Madeleine, essa, estava incrivel, com uma luz que surgia de cima, criando sombras pouco previsiveis. Seguiam-se os rituais da crucificação quando entrei. Mas o que me impressionou acima de tudo foi a beleza do ambiente: zero luzes artificiais, apenas a luz natural vinda da cúpula, mais as velas distribuídas, sem uma ordem específica, por toda a igreja.
Miriam Chan seguia-se nesta minha caminhada pituresca, ao modo de procissão.
Uns quadros impressionantes de objectos rotineiros, com uma poesia e um silêncio incrível, quase trágico.
Impressionam-me as pessoas de rotinas.
A vida interessa-me.
Encontrei um candeeiro chinês e pendurei-o na sala.



O Bem e o Mal.
noções invocativas de forças externas que operam no universo?
agentes esses que se infiltram na mente humana e influenciam a sua simiesca percepção, caindo frequentemente nas inverosomis categorizações booleanas e dogmas giríssimos.
Hipotetizo que os maiores erros da história foram motivados por formas de pensar desta categoria.
Hipotetizo inclusivamente que deve haver como que uma espécie de predisposição para o ser humano compreender o mundo que o rodeia desta forma.


Esta confusão não passa de um caso bicudo da linguística (presumo?). Bebo um café sem saber por onde seguir com o raciocínio... lembra-me, por ordem do acaso, a ideia de beleza e, por conseguinte, todos os seus opostos. História ilustrativa: preocupada com o caráter dos desenhos que fiz há alguns anos para uma exposição em Manchester, a minha mãe sugeria que havia que criar "coisas bonitas", que é como quem diz que "estes desenhos são muito feios".
E é ao chegar a esta memória curiosa que verifico que também o belo e o feio caem nessas atribulações invisíveis (qual aragem fresca?) às quais nos habituamos a nomear desde pequenos.
aquela vez que a minha prima Leonor caiu de skate, éramos nós miúdos. Chorou. Depois os adultos sugeriam que ela chamasse 'mau' ao degrau que a tinha feito cair.
Maldade. A recalibração total da noção de erro, redesenhada para culpar os tais agentes externos de que falamos. Porque não dirigir-se à criança que chora com um: "a culpa é tua. Falhaste.", pois a verdade é que o degrau sempre ali esteve, o skate sempre rodou da mesma forma, as leis das físicas não haviam mudado e o corpo continuava a magoar-se exatamente da mesma maneira. "A culpa é tua porque não tomaste em consideração as métricas que permitiriam evitar o risco de cair". Mas depois, todos caímos.
Constantemente caímos e caímos.
E uma chamada maioria elege mais um sociopata.
Dou mais um golo de café... Exasperado, aproveito para aliviar a vista. Observo os fregueses que se encontram no café sossegado. Gente boa, uma conheço-a da loja dos legumes, trocamos sempre umas ideias. Mulher francesa, reformada, com um track record curioso, tendo trabalhado com Mário Soares e malta do genero.
Um outro cliente, um homem bom, forte de corpo, fraco de cabeça, com quem ando aos murros ao sábado de manhã debaixo de minha casa. Mando-lhe um 'salut'.
Com isto ponho-me a pensar daquela vez que, a jogar futebol na escola, um tal Tomás fazia um passe impressionante para um tal Tiago.
Tiago, de perna curta, falhava o golo.
uma tragédia que enfurecia os companheiros de equipa (eu incluído) que passavam a culpar o pobre Tiago pelo infortúnio do resultado (eu incluído). Tínhamos talvez uns 12 e lembro-me da resposta do Tiago aos companheiros de equipa como se fosse hoje: "eu não sou supersónico". Nunca mais me esqueci.
Do golo falhado passo ao golo de café: terminando-o, estafado!
Pego num lápis e passo a fazer uma lista das coisas que preciso de fazer. E o lápis gravita sem que eu imponha qualquer ordem.
A lista:
; preciso de me dedicar a outras actividades: libertar-me desta escrita que não sei onde me leva. Debruço-me sempre sobre estes temas que não interessam a ninguém e raramente chego a qualquer conclusão pertinente ou clara ou pratica.
; preciso de experimentar fazer um desenho bonito, por uma vez que seja.
; preciso de acreditar no político-estrela que nos vai salvar das desgraças.
; preciso de dizer à criança chorona que a culpa é do degrau.
; preciso inclusivamente de começar a culpar os degraus no meu caminho,
; preciso de gritar, aos referidos degraus e citando um tal Tiago que, também eu, não sou supersónico.

Nos anos 80, Charles Bronson (o prisioneiro mais perigoso do UK) era transferido para a prisão de Strangeways.
Em 1990 registava-se, em Strangeways, o maior prison riot da história, durante o qual os reclusos tomaram controlo total da prisão, deixando as autoridades incapazes de intervir durante 25 dias consecutivos.
Em 2019, o Rodrigo (eu) mudava-se para um pacato apartamento com vista privilegiada [tal era o luxo] para Strangeways;
na altura, o mesmo Rodrigo criava sob o pseudónimo de Ruslan Karaev [mais tarde rebranded para Faraev], onde explorava as dinâmicas positivo-negativo. Foi uma altura em que acima de tudo desenhei muito e experimentei com música (numa tarde cinzenta e por baixo de uma ponte de Salford, tinha feito uma boa negociata por uns sintetizadores divertidos).
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E eu, que vivo fora de Portugal faz mais de uma década, vou (sem ordem pragmática) relembrando certas portugalidades que me vão surgindo. Por exemplo, debruço-me com frequência sob a bela frase de Fernando Farinha (o miúdo da Bica): “Prefiro ser sempre triste, para não morrer de alegria”.
Pressinto que este meu fascínio contrasta com as visões com que me vou deparando nestes mundos neo-xamanistas (New Age / Pop-psy / Consciousness revolution / Beauty extremism...), onde o peso na positividade tende a ser excessivo?
E então pus-me a ler a Sociedade do Cansaço (Burnout Society), de Byung-Chul Han, onde este argumenta como a problemática anteriormente proposta por Foucault (do “tu não podes”) não era já dominante nos dias que correm: que passava a ser substituída pelo “tu podes tudo!!” ...potencialmente mais perigoso.
Nesta altura decidi pintar o meu quarto de preto.
Eis David Lynch:

Confissão final: também eu, passados estes anos todos, caí nas amarras do New Age.
A tragédia da vida aproximou-me dos mantras, dos festivais neo-xamânicos, das técnicas de respiração!, e da [trágica] neurociência… As quais tendem a ir de mão-em-mão com os ritualismos de Silicon Valley, discussões sobre inteligência artificial ou a recente obsessão sobre as técnicas de bio-hacking e loucuras do género.
Vejo-me nos túneis obscuros do positivismo desenfreado, das filosofias vibratórias, “tudo é vibração” moralizam, culpando o desafortunado pelas suas más vibrações.
E aqui nos encontramos: numa overdose de alegria. A tal para a qual alertava já, com sabedoria e estilo, o miúdo da Bica.


Quem me conhece bem sabe que o meu livro preferido de todos os tempos é o Noites Brancas, de Dostoievsky.
Neste, Dostoievsky define os contornos daquilo que é o amor, verdadeiramente. Um momento que me marca tão especialmente é aquele em que o personagem principal se depara pela primeira vez, nas ruas de São Petersburgo, com a mulher por quem se virá a apaixonar. E esta lhe faz uma simples pergunta: ‘qual a sua história?’. A resposta é, para mim, icónica: num monólogo à la Dostoievsky, a personagem começa por responder que é um homem sem história. E prossegue com uma explicação que dura algumas páginas.
Numa sociedade que nos força constantemente a identificar quem somos e quem queremos ser, também eu prevejo ambicionar esse status: o de ser um alguém sem história.
Passar pela vida, porque a vida, de tão espetacular, se nos vai manifestando, com um humor muito próprio que consigo, cada vez melhor, identificar.
Desde o doido que me aborda na loja da lotaria, à Russa da loja das frutas com os seus conselhos de vida questionáveis, os alcoólicos no café local com quem debato as teorias das conspirações, ou a malandragem da loja de conveniências onde compro os meus cereais noturnos (não durmo sem antes comer os meus oats!!).
Tudo isto consiste num teatro orquestrado que se vai desenrolando (tal é o luxo da minha vida?) de forma diária e rotineira. Como bom público que sou, vou interagindo quando me é exigido: bato palmas quando tenho que, ajudo quando tenho que, rio quando tenho que, crio uma excelente teoria quando tenho que,… e por aí em diante.
Mas a vida prossegue com um algo de misterioso que me irrita, talvez por saber que tudo não passa de um ato artístico (o da vida) de gozar com as coisas…
E depois ponho-me a olhar para as coisas que vou criando e desenhando.
E surgem perguntas.
Eis um desenho que fiz ao chegar a Paris:

E pronto.
Amanha ha +.
RTM /// 2026